sábado, 28 de novembro de 2009

Moreno dos olhos pequenos
De meiga tristeza
Se tristeza fosse de meiguice feita
Pediria para quebrar meu coração mil vezes
Para que o enchesse de doçura.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Urucubaca do fim dos tempos por quem entende de mandinga:

Eu sei.

Mais ninguém o sabe.

Mas eu sei.

Me estão tremendo as mãos ao segurar os dezesseis búzios. Como se não o fizesse a tantos anos.

Mas preciso jogar uma outra vez. Ogum que me perdoe, mas preciso confirmar pela terceira vez.

- Ogum Patacuri meu Pai. Agô! Perdoa esse filho. Mas se eu fui feito Babalorixá pelo senhor e tua força, meu Pai, respeite minha descrença perante essa sua revelação. Ogunhê! Ogum Patacuri Alá Megê!

Balanço novamente as mão trêmulas, fechadas em concha, formando casulo para as pedras da confirmação de Orunmilá. O estilhaço sonoro desses búzios que se batem, antes me parecia sereno, agora me soa como trovoada.

Mas lanço-lhes ao meu jogo. Meu jugo e de todos nós se lançam com eles. Orunmilá me petrifica o peito. Gela a espinha. A mensagem do senhor Ogum está confirmada. Como ordem do Orum, Olorum decreta que não mais se dê espaço aos homens. Cada espírito seguirá a força de seu criador e os que não se iluminara cessarão de existir.

“É o juízo final... a história do bem e do mal...
Quero ter olhos para ver... a maldade desaparecer”

Dentre todos os calafrios e aproximações espirituais que me envolvem e tonteiam perante a Aláfe que Ogum me deu, é Nelson Cavaquinho quem me acalma.

“O sol há de brilhar mais uma vez... a luz há de chegar aos corações”

Não há tempo a perder! Os ilús dos céus já estão batendo. Posso ouvir esses tambores dentro do meu peito.

Guiné, Alecrim, Alfazema... Espada-de-São-Jorge, Abre-caminho, Saião...
Comigo-ninguém-pode, Bejuim, folha de romã... Peregum, erva cidreira, Arruda!

Todas as ervas serão necessárias com a ajuda de Ossãe...

- Dum dum dum dum dumtiriri, akinijô afáueri,
Akinijô auórekàn, axé con abô, Ossãe eua!

Galos pretos, galinhas d´angola, frangos e pombos...
Serão precisas todas as oferendas para meu pai Ogum... e para o senhor Exu! Bará ô!

- Embarabá ô agô mojibá, unbom axé,
Embarabá ô ago mojibá, yamadê acoelê
Embarabá ô, Exu ê mojibá, Elegbara ê Exu unbom axé!

É preciso fazer a maior macumba de todos os tempos. A curimba do juízo. Oxalá terá de ouvir meu penar. Queimem-se as pólvoras, vou agigantar meu ebó! Com a itába, ervas de Ossãe farei minha cabana, untada em dendê. Ogum Senhor das Hóstias assento ao meu lado empunhando a espada mais afiada. Exu na porta de entrada para a minha defesa.

É escurecido o mundo. Eu sento-me em minha cabana e rezo para Oxum, que com seu mel, convença mais uma vez a Olorum que deixe seus filhos perecerem em paz.

- Orunmilá mamãe, Orunmilá mamãe,
Taladê, talá boriô. Oxum agaó, comamã deô,
Até undi isigu abá omi, Oxum fideri godô.
Yeyê ô!

Chove... é o fim. Não há mais o que se possa fazer. Todos estão por aí como em qualquer outra chuva. Não adiantaria avisá-los. Mesmo outros Babalorixás não me acreditariam... porque Ogum avisaria somente a mim? – perguntariam... Não há mais o que fazer... estão todos mortos... que minha macumba proteja minha luz...

Que todos os seres que fizeram o bem vejam o sol...

“Do mal... será queimada a semente...
o amor será eterno novamente...”

Que Olorum tenha pena de todos nós.






Pedro Tomé


Texto postado em 04/01/09 em doomsdayhocuspocus.blogspot.com
Apagões a parte, entrar em um quarto escuro é sempre incerto.



terça-feira, 3 de novembro de 2009

Teatro de Rua no Brasil

http://teatroderuanobrasil.blogspot.com/



No próximo dia 05 de novembro, Dia da Cultura, a partir das 17h, na Cinelândia, Centro do Rio, artistas, grupos e companhias dos principais coletivos de artes cênicas do Estado do Rio de Janeiro, integrantes da Rede Estadual de Teatro de Rua, realizarão um Ato Público em prol da liberação dos espaços públicos (ruas, praças e jardins) para o livre exercício do ofício dos artistas/trabalhadores de rua.


Com a ilustre presença do Mestre Amir Haddad, o Ato Público será uma forma teatral dos coletivos de Teatro, Circo, Música e Dança, atuantes em todo o Estado do Rio de Janeiro, se manifestarem contra a postura administrativa do prefeito Eduardo Paes em relação a proibição das manifestações artísticas nos espaços públicos.


A concentração para o Ato acontecerá a partir das 16h, na Cinelândia, Centro do Rio, ao lado do Theatro Municipal. O cortejo seguirá em passeata até a Câmara dos Vereadores.


Desde que instalou-se a iniciativa da atual administração da cidade do Rio de Janeiro intitulada "Choque de Ordem", os artistas, trabalhadores, fazedores de cultura em espaços abertos, estão sendo, de forma agressiva, impedidos pela Guarda Municipal de exercer o seu ofício, ferindo os direitos de liberdade de expressão, resguardados pela Constituição Federal, conforme citado no artigo 5o, parágrafo IX, que diz:


"É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença".


Os artistas, grupos e companhias integrantes da Rede Estadual de Teatro de Rua do Rio de Janeiro atuam em todas as regiões da cidade, levando a sua arte para o público de todas as camadas sociais. Encontram-se há anos exercendo seu ofício pelas ruas desta cidade e nunca se depararam com uma forma de repressão tão violenta, que contraria este momento de construção da democracia, no qual estamos vivendo nesta cidade.

De acordo com a Rede, o protesto estima reunir cerca de 1.000 mil pessoas ligadas às Artes de Rua, como o Mestre Amir Haddad, os grupos Tá na Rua, Cia de Mystérios e Novidades, Grupo Off-Sina, Teatro em Cordel, Teatro Itinerante, Filhotes de Leão, CUCA/UNE, entre outros.


SERVIÇO:


Evento: Ato Público em prol da liberação dos espaços públicos.


Data: 05 de novembro de 2009.


Concentração: Cinelândia, ao lado do Theatro Municipal, a partir das 16h.


Ato Público: Cinelândia, em frente a Câmara dos Vereadores, a partir das 17h.


Assessoria de Imprensa: Lilian Moraes




Tel/Fax: 2556-6203 / 9766-4206


Solicitamos o seu apoio na divulgação.


Contamos com a sua presença!


Um abraço,


REDE RJ





terça-feira, 27 de outubro de 2009

Enrustidos

Essa carta será escrita no escuro, na ausência de minha própria consciência. Prefiro pensar assim a acreditar no fato de te desejar silenciosamente, no canto escondido dos meus quereres, só pela curiosidade.
Em algum lugar você mexe comigo. 
Em meio suas mentiras eu vejo meu rosto chegando perto do seu, minha mão da sua... Imagino o beijo, imagino o cheiro, imagino o calor. 
O encaixe. 
O coração batendo um pouco mais acelerado. A ânsia e a angústia do momento se diluindo no prazer e na excitação que a sensação de liberdade nos traz. 
A contração dos sexos transforma em líquido todo o meu corpo e eu só sei pensar em deslizar você.
Antes que eu me permita perceber volto a mim e deixo nascer um leve sorriso que mora na liberdade.
Não sei por onde, não sei quando e, sinceramente não cobiço respostas. O que me move é a questão.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Boca d'água

Já diz a minha avó:
- A água lava tudo, só não lava a boca suja!
Quem mete a boca em boeiros, pênis, copos de bar, vaginas, cigarros, outras bocas. Em outras bocas que metem a boca em boeiros, pênis, copos de bar, vaginas, cigarros, bocas limpas que nem palavrões dizem.
Bocas infantis
Bocas de ouro
Bocas de sinuca
                                               


BOCACABOBOCAGE


Quem mete o olho na boca de Bocage e o olho na língua da boca que mexe e molha a saliva da língua do dente da gengiva das ondas do céu.
A boca que saliva ao olhar a boca que prega e seduz a minha língua que molha minha saliva do dente da gengiva das ondas do meu céu.



Mais água para mim, por favor.

domingo, 4 de outubro de 2009



De todas as minhas não certezas, a necessidade fisiológica enquanto essência é a única da qual, eu acho que, tenho certeza.


A certeza é uma puta.


quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Zé.



Tão mortal quanto o silêncio que o matar a fome gera.
Cica.
Infelicidade de não ser mais arranhada ou mordida,
Os finos ossos nas pontas dos seus dedos batendo contra o piso do azulejo
O silêncio que a ausência de tal ruído me traz fere meus ouvidos de forma gelada.
Azul.
Pontiagudo.
O bafo quente de suas mínimas narinas na minha bochecha
Seguido de uma áspera lambida
Áspera como quem leva o que lambe para dentro de si
Para ter junto eternamente
Eu te lambi e te suguei para mim
Quero passar uma vida inteira te digerindo.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Fruta da estação passada

Tanta gente te inspira ( e pra mim nem uma linha)
Às vezes fica difícil ser
Um movimento, um vestido, um par de olhos azuis
A jovem pela cintura que acentua
A mulher...( essas frutas não te chamam atenção)
São cores tão fortes que te cegam

Mas do outro lado da lua (da cama)
Onde há compromisso com o bem estar
As cores são brandas
A cintura, redonda
Os vestidos são sem graça
A tinta nos papéis que desarrumam seu quarto
Tem nome e endereço
A poesia tem rima e perfume certos
O por do sol já tem dona
E as estrelas, contratos
A minha meninice é muda
O fogo das outras ondas me queimam
Os olhares que apontam furam o meu
O violão cansou

No entanto
A matemática não faz sentido
Aqui, de onde não sai nenhum ruído
Você resolveu descansar
A noite dorme em meus seios
Me ama, me quer, me morde
...
Esse coeficiente é marciano
Soma inversa de valores
O que é dito, é dito
Quando é dito, basta
Objetivo alcançado
Descansa o juízo, o sono vem

Há frutas que não dão durante o ano inteiro
Quando a estação certa vem
Estocamos a geladeira
Ou comemos de uma vez e nos lambuzamos para não ter mais
Ou apodrece.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Quando eu resolver falar
O que meu peito não quer calar
Você vai acreditar
No que eu disser
E vai acreditar
Com tamanha força
Que vai me convencer
Que o que eu disse
Realmente quis dizer.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Pureza

Se todo poeta tem que ter um quê de triste, ele há de ser, então, um grande poeteiro.
No seu olhar esbarram-se a pureza da primeira decepção de uma criança e a dor acimentada de quem amou cem vezes e perdeu cem amores.
Em toda confiança há um quê de pureza. Em toda decepção também.
É preciso ser malandro para se confiar em alguém sem se decepcionar, mas também há um quê de pureza em se bancar malandro.
Tristeza é preciso. Pureza também.
Sendo devorada por seu olhar, corrigi Vinícius:

" Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de pureza
Senão não se faz um samba, não"